domingo, 15 de setembro de 2013

Eu venho do Sol




"De onde você veio?"
E aponto para o céu, uma estrela
Que se destaca em sua constelação pelo brilho
E que, não por acaso, eu havia já observado no começo da noite.

Estava ela a uns sessenta graus do solo,
Entre as direções oeste e sul.
Em geral, eu sabia a posição da Estrela,
Mesmo se me fechassem os olhos antes de perguntar

"Eu venho do Sol!", respondi.
O colega, que conheci na tarde anterior,
Pareceu ter gostado da minha resposta;
Muito tinha ele ouvido e visto do lugar de onde vim.

Expliquei que no Sol fica a origem de minha espécie,
Que todos os outros parecidos comigo têm nele seus ancestrais.
Ele tinha ouvido músicas, visto filmes, lido livros,
E conhecia pessoas legais que vieram de lá.

"Somos poucos aqui", disse eu.
Mas era claro que éramos.
Onde eu estava, eram sempre poucos;
Eram poucos de muitos lugares.

O Sol era ainda um lugar deserto,
Perto dele, não muito se encontrava que fosse vivo,
E era muito bom poder conhecer
O lugar dos poucos de muitos.

"O terceiro planeta", falei,
E ele sabia que era o único;
O único rico, o único fértil,
A solitária esfera azul.

Ele sabia que grandes feitos
Tinham se passado por lá
Ele conhecia o bom trabalho que fizeram
Para preservar e divulgar nossa história.

"A Lua é mesmo bela?", perguntou.
Olhamos para o céu novamente;
Um planeta de intenso brilho mostrava-se
Quase morrendo no oeste.

O céu era lindo, de fato,
Constelações inteiramente novas,
Muitos planetas a toda hora,
E fragmentos esfumaçados da nossa grande Via Láctea.

"Não é tão bela nas fotos que você viu",
E expliquei que as imagens que pudemos registrar
Não podiam retratar exatamente o que o olho vê,
E ele ficou imaginando um luar realístico.

De fato, uma lua faltava;
Na Terra, nos dava de sobra:
Sobrava espetáculo e admiração,
Um detalhe terrestre um tanto precioso, se pode dizer.

"Eu venho de lá", disse, desta vez fitando a minha estrela.
Ele percebeu minha emoção.
Afinal, aquele ponto branco, brilhoso
Naquele lugar, ainda era meu maior regente.

Apesar de tão longe, ainda podia vê-lo;
Meu lar, minha origem, minha gravidade;
Era muito bom poder olhar para ele,
E falar, e mostrar, e contar para as pessoas.

"Foi de lá que eu vim", pensei agora comigo mesmo,
Me sentindo sortudo pela minha posição.
Aquele ponto branco me mantivera vivo por muito tempo,
E agora, eu saíra de casa, e ele estava em meu olhar.

E ficamos, depois disso, só olhando,
A noite limpa, o céu em bom contraste
Apesar de meu passado cravado em minha mente,
Não dava para desfazer: era incrível o lugar onde eu estava.


Raphael Rocha, 2013.

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